20.5.13

News: primeira entrevista de George R. R. Martin para o Brasil

A colunista da Folha de São Paulo, Raquel Cozer, publicou, ontem, uma entrevista com o meu divo George R. R. Martin, onde falou, entre outras coisas, sobre GoT e também sobre a série de livros Wild Cards, cujo primeiro volume está sendo lançado hoje aqui no Brasil.


Selecionei algumas partes da entrevista que considerei mais relevantes, mas se você quiser ler ela completa é só clicar aqui.

O sr. se tornou escritor devido ao interesse por quadrinhos, como costuma dizer, e em “Wild Cards” o sr. leva os super-heróis dos quadrinhos para a literatura. Como é usar na literatura um tema tão característico das HQs?
Bom, nós buscamos, nos livros, fazer uma abordagem mais realista. Para começar do básico: eu amo quadrinhos, cresci lendo quadrinhos, mas há muitas convenções no formato que não fazem sentido quando você pensa nelas. A noção de que alguém que consegue superpoderes vai imediatamente comprar uma roupa de spandex e combater o crime. Não acho que isso funcione. No mundo real, se você conseguisse superpoderes, se eu tivesse a habilidade de voar, bem, provavelmente eu ainda seria um escritor, com a diferença de que não andaria mais de aviões. Isso iria mudar minha vida, mas não como acontece nos quadrinhos. 
Então essa foi a situação quando pensamos no básico. Partimos da premissa: ok, depois da Segunda Guerra, algumas pessoas conseguiram superpoderes. Poderes e habilidades que vão muito além daquelas dos simples mortais. E começamos a pensar como o mundo seria transformado, como a vida das pessoas atingidas seria transformada.

Os Curingas, nesse sentido realista, são importantes para tratar de questões como o preconceito, não?
Sim, sim. Muitas mutações não são boas. Queríamos dizer: ‘Sabe, se você sofresse uma mutação como essas dos quadrinhos, seria possível que isso não fosse tão bom, e isso é muito mais provável que uma mutação boa, inclusive’. Isso torna a história diferente de qualquer outra da Marvel, da DC Comics, Universal, a comunidade Coringa e a existência desse segundo time junto com os superpoderosos Ases, isso é algo que ninguém mais faz.

Acontece de um autor escrever para “Wild Cards” algo que o sr. acha que não vai caber na história como um todo e isso ser vetado? Como é escrever em equipe para um autor tão acostumado a escrever sozinho [como em "As Crônicas de Gelo e Fogo"]?
Isso acontece o tempo todo. Vem acontecendo há 20 anos, e por isso sou necessário como editor. Os autores escrevem suas histórias e meu trabalho principal, além de também escrever as minhas, é juntá-las. E há um grande trabalho de reescrita envolvido, porque as histórias nunca ficam perfeitas juntas de primeira. Às vezes, tenho autores que escrevem duas cenas que se contradizem ou que se duplicam, e essencialmente eu conduzo a sinfonia aqui, como se fosse uma “big band”, com todos os instrumentos e personagens funcionando juntos. 
É um trabalho difícil. Editei uma série de publicações ao longo dos anos, mas o trabalho envolvido em “Wild Cards” é certamente o mais desafiador tipo de edição, simplesmente porque você tem que pensar em equipe e ao mesmo tempo conseguir boas histórias dos escritores. Criamos um mecanismo pelo qual o criador de cada personagem revisa o texto quando seu personagem é usado por outro escritor. Além de mim como editor, os escritores interagem. Então, se alguém vai usar um personagem meu, como o Tartaruga, posso dizer: ”Não, ele não diria isso dessa maneira”, ou “Ele nunca faria isso”. Muita reescrita. Mas, felizmente, a maior parte dos escritores faz o trabalho com muita vontade, adora escrever sobre esses personagens e esse universo.

Há algum personagem de outros autores que você gostaria de ter criado?
Provavelmente o Dorminhoco, que foi criado por Roger Zelazny, um amigo querido e um dos melhores escritores que a ficção científica já produziu. É muito original, parte do time original [personagens do primeiro livro]. O Dorminhoco é flexível, tem suas características, mas pode caber em praticamente qualquer história dos outros autores, às vezes como herói, às vezes não. E ele é um homem do nosso tempo. Ele vive em 2013, era um garoto quando o vírus chegou à Terra, em 1946, então ele se lembra de um mundo diferente. Toda vez que ele vai dormir, não sabe como vai acordar [se com poderes de Ás ou deformidades de Coringas] ou se vai acordar. É um personagem incrível, provavelmente o mais icônico do “Wild Cards”.

Os direitos de adaptação foram comprados pela Universal para o cinema. Em que pé está isso? O sr. lida bem com a ideia de transformar a série em um único filme, algo que não quis aceitar para “As Crônicas de Gelo e Fogo”?
Bom, Wild Cards não é bem uma história, são centenas de histórias, é um mundo. Esperamos que o primeiro filme conte uma história de um grupo particular de personagens, e, se fizer sucesso, o segundo filme pode ser com um time completamente diferente de personagens. E pode ser no passado, no futuro. Temos centenas de personagens e histórias. É uma franquia incrível, que funciona para uma série de filmes, que é o que esperamos conseguir, ou para uma série de TV, o que pode vir a acontecer se os filmes fizerem sucesso. Mas agora estamos no estágio inicial, Melinda Snodgrass [uma das autoras da série e coprodutora, com GRRM, do fillme] está escrevendo o roteiro, está no segundo rascunho. Estamos esperando.

O sr. ainda tem tempo para se dedicar a “Wild Cards”? Os leitores de “As Crônicas de Gelo e Fogo” permitem isso?
Bom, alguns ficam irritados. Mas, dito isso, hoje não escrevo muito para “Wild Cards”. Faço a edição, que é algo que demanda tempo, mas não tanto quanto escrever as histórias. Gostaria de escrever mais para “Wild Cards”, adoro esse mundo, adoro meus personagens nesse mundo, mas não posso até terminar as “Crônicas de Gelo e Fogo”. Essa é a minha prioridade, ainda tenho dois livros a terminar e isso vai me tomar alguns anos, e ainda tenho a série de TV vindo atrás de mim.

O sr. lida com muita pressão para terminar as “Crônicas”, há quem até tenha medo de que não consiga terminar o sétimo livro, dado que já se passaram mais de 20 anos desde que começou a escrever e ainda faltam dois títulos. O sr. costuma dizer que guarda na memória, mas não tem algo no computador, uma linha geral, algo que eventualmente sirva como base num futuro distante?
Tenho alguma coisa anotada, sei para onde está indo a história e estou seguindo isso. Não tenho todos os detalhes anotados, isso é algo que prefiro pensar à medida que escrevo. Essa é a aventura de escrever, quando os personagens e a linha da história vão para lugares não imaginados, mas sei as principais coisas que vão acontecer. Sou um escritor lento, reescrevo tudo. Não imagino que isso vá mudar, então as pessoas que ficam aflitas com a chegada dos meus livros vão ter que se acalmar e lidar com isso. Não posso ir mais rápido só porque estão impacientes.

O sr. trabalha como consultor de “Game of Thrones”, série de TV baseada nos livros, sem poder de veto, até onde entendo. Como lida com as mudanças feitas pelos roteiristas, que estão mais comuns nesta terceira temporada? Há alguma solução deles que o sr. chegou a achar melhor do que o que estava no livro?
Bom, adoro a série de TV, mas gosto mais dos livros. Foi de grande ajuda para mim, em relação a série, o fato de eu ter trabalhado em TV por dez anos, nos anos 1980 e 1990 [foi roteirista das séries "Além da Imaginação" e "A Bela e a Série"]. Não trabalhava na criação, adaptava material de outros escritores. Então sei o tipo de alterações que são necessárias, em geral por questões práticas, como ter só uma hora por episódio, ter que encaixar tudo num certo orçamento. 
O orçamento de “Game of Thrones” é grande na comparação com outros do tipo, mas ainda é um orçamento. Você não tem todo o dinheiro de que precisa nem pode contratar todos os atores de que gostaria. Com isso, personagens têm de ser combinados, outros têm de ser modificados, situações também. Temos dez episódios por temporada. Sempre disse que o ideal seriam 12 episódios, o que permitiria aproveitar mais personagens e situações que infelizmente ficam de fora, mas seria caro. Dez episódios é o que temos, e acho que fazem um trabalho excelente com isso. De algumas das mudanças eu gosto, por outras não são sou tão apaixonado. Mas entendo a necessidade de todas elas.

Pode dar exemplos de mudanças de que goste ou não?
Acho que as novas cenas que estão inventando para o programa estão funcionando, muitas são perfeitas, algumas das melhores da série estão nesses episódios. Sinto falta de algumas das cenas com o Mance [Ryder] ou diálogos que foram cortados. Algumas mudanças eu não faria. Fiz os livros por razões que eram minhas e prefiro na maior parte dos casos elas tal como estão nos livros.

Impressiona a dimensão geográfica e genealógica que a história toda tomou. Ela chega a fugir do seu controle?
Isso é uma razão por que demoro tanto escrever. A história foge constantemente do meu controle. Reescrevo muito, vou seguindo os personagens e às vezes eles me levam pelo caminho errado, então tenho que voltar e entender o que deu errado. E então reescre, coloco numa ordem diferente, até entender como deve ser.

O sr. usa com muita frequência os chamados cliffhangers [estratégia para prender o leitor ao final de cada capítulo]. Diria que é uma forma de arte?
Sim, definitivamente. Esses dez anos em que fiz televisão me ensinaram muito sobre isso. Não sei como é no Brasil, mas, na TV americana, os programas têm muitos comerciais. E é preciso que a cada ato, considerando que um programa tem de quatro a cinco atos em uma hora, exista o chamado “act break”, que pode ser um cliffhanger, embora não precise ser. Algo como uma revelação, um personagem que descobre algo, alguma coisa que impeça que o espectador mude de canal no comercial e que o faça pensar no que vai acontecer. 
Essa é uma técnica boa, que prende as pessoas na história. Em “Game of Thrones”, mesmo não tendo intervalos, eu queria que cada capítulo terminasse com um “act break”. Alguma coisa acontecendo do final de cada capítulo, por exemplo, da Arya, que fizesse você imediatamente querer saber o que acontecerá no capítulo seguinte. Mas você não pode saber isso imediatamente, porque agora tem que ler um capítulo do Tyrion ou do Jon Snow. E então você lê o capítulo do Tyrion e ali acontece algo que faz você querer ler o próximo capítulo dele. O ideal é que funcione com todos os personagens. Não é uma técnica fácil, mas acho que tem funcionado.

Qual o sr. diria que é o tema central das “Crônicas” e o que elas refletem da visão que o sr. tem de política ou das sociedades atuais?
Um tema central é certamente a disputa de poder. As relações de políticas e de governos. Mas prefiro pensar menos em temas e mais em histórias individuais, o que nos leva de volta aos personagens, à questão do coração de que falou Faulkner. Estou mais interessado no que Jon ou Dany faria agora do que nas falhas das sociedades médias como um todo. Os personagens se tornaram muito verdadeiros para mim e espero que também para ao leitor. 
O mundo é minha criação. Não estou interessado em criar uma alegoria ou fazer um comentário político ou social, mas inevitavelmente meus pontos de vista e minhas opiniões estão lá, porque eles fazem parte de mim.


Além dessa entrevista que, by the way, foi a primeira que o autor deu para um veículo de comunicação brasileiro, a colunista também apresentou as opiniões de alguns autores sobre a relevância de George Martin para a literatura fantástica.

Raphael Draccon, autor de "Dragões de Éter", editor do selo Fantasy/Casa da Palavra e curador da série "Wild Cards" no Brasil
"Enquanto Tolkien tornava real a proximidade com a mais alta fantasia, Martin torna a fantasia o mais próximo da nossa realidade. Para Tolkien a fantasia dá o sentido, para Martin ela é um detalhe dentro de uma história que fala por si só. Seus personagens fazem sentido em um universo fantástico, tanto quanto fariam sentido na Europa medieval. Seu cenário não possui um protagonista, seus diálogos são mais filosóficos do que alguns livros de filosofia, e a árvore genealógica das famílias que acompanhamos os pontos de vistas é tão vasta que a princípio suas obras parecem preparadas por equipes gigantescas de escritores, não por uma mente capaz de superar sozinho todas elas."

Carolina Munhóz, autora de "A Fada"
"O Martin é uma inspiração para qualquer escritor focado em personagens femininas. Em uma época em que o cinema e os videogames descobriram o potencial das mulheres protagonistas, suas mulheres já dominavam há tempos tanto o jogo dos tronos, quanto a organização da família e, sem dúvidas, a cama. Não há como não admirar a personalidade, imponência e força de cada uma delas. Como uma escritora de fantasia me sinto desafiada a tentar o meu melhor para criar perfis psicológicos como ele."

Affonso Solano, autor de "O Espadachim de Carvão"
"Como um Abraão da literatura fantástica, o americano de rosto simpático jamais temeu sacrificar os filhos mais queridos em prol da boa história, chocando leitores acostumados com o paradigma da justiça deus ex machina, que sempre puniu o vilão e poupou o herói. Enquanto a mãe de Harry, Ronny e Hermione chorou com cada personagem derrubado, George parece saborear cada decapitação em Westeros com a certeza de que um universo crível e cativante está sendo tecido. A popularização de seu trabalho elevou o fantástico a patamares inovadores, provando que trazer o fantástico para o real é - ao contrário do que se pensava - uma excelente estratégia."

Leonel Caldela, autor de "O Código Élfico"
"George R.R. Martin escreve sobre batalhas, intrigas, magia. Mas isso tudo é pano de fundo: ele escreve sobre pessoas. Dizer que os habitantes de Westeros têm defeitos é clichê; dizer que qualquer um deles pode morrer a qualquer momento não chega a arranhar a superfície dessa inovação. Eles têm defeitos porque são reais. Podem morrer porque estão vivos. No meio das lutas, das traições e jogos de poder, Martin nos apresenta heroísmo verdadeiro, compaixão genuína, amor incondicional. Obriga-nos a questionar o significado desses sentimentos. George R. R. Martin criou um grande problema para escritores e leitores de fantasia --agora queremos mais. E nunca queremos voltar ao que era a literatura fantástica antes." 

Para ler outras opiniões, clique aqui. 

O post ficou gigantesco, mas o bom velhinho merece e aqui no blog sempre terá todo o espaço do mundo! Para os que chegaram até aqui, espero que tenham gostado!

4 comentários:

  1. Nossa que legal *-*
    Pena que vai demorar muito para sair os 2 últimos volumes da Guerra dos Tronos. =/
    Obrigado por compartilhar isso com a gente Michelly!

    Gabriel - http://umpapoentrepaginas.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nem me fala dessa demora, Gabriel... Se for no mesmo esquema que os outros, daqui a uns 10 anos a gente fica sabendo o final! E 10 anos é sendo otimista, hein?!

      Excluir
  2. Oi, Mi!
    Essa entrevista ficou muito boa, hein? E enorme também... mas como foi a primeiro concedida para o Brasil, onde os livros dele são tão bem vendidos, acho que foi justo e merecido.

    Essa estimativa de 10 anos tua e do Gabrieel vai ser ótima para mim, porque só com esse tempo todo pra eu ler tudo que eu quero ler desse escritor. :)

    Beijos!

    Café com Leituras!
    http://cafecomleiturasneriana.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A entrevista é grande mesmo, e olha que eu não coloquei ela toda aqui, hein!
      E 10 anos é tempo demais pra quem já leu até Dança, Neri! Socorro! hehe

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...