23.5.14

Resenha: A Estrutura da Bolha de Sabão


A Estrutura da Bolha de Sabão - Lygia Fagundes Telles
184 páginas


“A estrutura da bolha de sabão, compreende? Não compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca.”  


Lygia Fagundes Telles publicou esse livro primeiramente com o título de Filhos Pródigos, em 1978, e só em 1991 ele foi republicado com o atual nome de A Estrutura da Bolha de Sabão. Logo no início da obra, a autora explica que a ideia para o conto que dá nome a essa coletânea surgiu durante um café com o amigo Paulo Emílio, o qual lhe contou que conhecia um físico que estudava a estrutura da bolha de sabão.
Assim Lygia escreveu a história do encontro de um homem e sua esposa com uma ex-namorada, onde o ciúme vai surgindo de forma perigosa, tal qual uma bolha de sabão inflando, prestes a explodir. Da mesma forma, pode-se fazer uma metáfora entre os outros contos e a bolha de sabão. Alguns deles revelam personagens querendo sair da bolha, já outros nos mostram a situação contrária, dos que querem permanecer no refúgio da bolha, seja por medo ou por comodidade.

Na obra são retratados temas delicados como o preconceito, a loucura e a crueldade, visando, principalmente, mostrar as consequências da rejeição e repressão impostas a uma pessoa, as quais produzem um ser humano incompleto, covarde e infeliz.
Os nove contos da antologia – A Medalha; A Testemunha; O Espartilho; A Fuga; A Confissão de Leontina; Missa do Galo (Variações sobre o Mesmo Tema); Gaby; e A Estrutura da Bolha de Sabão -, são extremamente afiados e até cruéis, colocando a mulher no centro das atenções, apesar de em alguns momentos destacar o homem e suas fragilidades.
Contudo, apesar do aspecto incisivo de sua narrativa, Lygia consegue colocar um pouco de leveza e inocência em sua escrita, o que faz com que a leitura decorra de forma tranquila, sem grandes choques, mesmo quando seria normal esse tipo de reação devido a cenas fortes, como a do assassinato de uma pessoa, por exemplo. Por isso, apesar de gostar de histórias menos sutis e que me despertem fortes emoções, não posso deixar de aplaudir o talento incontestável que Lygia provou ser possuidora durante o desenvolvimento de sua coletânea.

Dito isso, preciso explicar o porquê de ter classificado A Estrutura da Bolha de Sabão apenas como 2 corujinhas, como vocês devem ter percebido.
Pois bem, Lygia é uma ótima autora e quem sou eu para dizer o contrário, mas não me identifiquei nem um pouco com seu estilo literário e com sua narrativa, que foi suave demais pra mim. Eu gosto do choque, do coração na boca, daquela palpitação que nos acomete depois de uma grande surpresa, e essas não foram sensações presentes durante minha leitura, apesar de acreditar que o texto tinha muito potencial para isso.
Os contos nos mostram a vida como ela é, porém com uma sutileza que, apesar de enaltecer o talento da escritora, tornaram a leitura bastante enfadonha.
Acredito que essa minha impressão se deva ao fato de Lygia fazer parte de um grupo adepto da escrita intimista, introspectiva e de traços psicológicos que caracterizam a chamada Geração 45, da qual também fazem parte, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, entre outros.
Realmente, esse não é meu tipo de leitura, o que não significa que você também não irá gostar. E digo mais, tenho certeza de que, se você é um leitor mais sensível e tem uma queda pelo lirismo, vai amar cada conto dessa antologia e ainda vai querer mais. Pra mim já foi o suficiente, mas pelo menos conheci - finalmente! - a escrita da famosa Lygia Fagundes Telles, o que já vale muito.

8 comentários:

  1. Oi Michelly :)
    nunca consegui falar sobre um livro de contos... acho que o fato de eu não gostar muito de contos ajuda a não escrever sobre eles, sou meio como você, gosto de sentir a emoção da história, e um livro mais tranquilo é bom de vez em quando, beeeem de vez em quando.

    Abraço!!

    http://leitorantissocial.blogspot.com

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  2. Primeiramente, obrigada pela resenha de um livro que normalmente você não escreve aqui no blog, gosto muito desse tipo de leitura entre outros estilos que vejo você postar normalmente, com certeza depois dessa resenha vou incluí-lo na minha lista de desejados.
    bjss
    Mariana
    http://resumodolivro.wix.com/resumodolivro

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    1. Se é se tipo de leitura, vc vai adorar! Eu não me identifiquei pq gosto mais de outro tipo de livro... :/

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  3. Nunca tinha ouvido(lido) falar desse livro. Mas fiquei curiosa, embora goste de sentir um choque, de ter o coração na boca e etc. que nem você!
    Bela resenha!
    foradocontextoo.blogspot.com

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    1. Vale a ena experimentar! Vai que vc gosta?! ;)

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  4. Filha, você está diante de um clássico. Diante dos clássicos, tenha muito cuidado. Não são clássicos à toa. Há uma riquíssima metáfora aqui, não é livro de aventura. Se não entendeu, nem resenha. Não fica passando essa vergonha.

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    1. Olá Anônimo! Então,como eu disse na resenha, esse não é o MEU tipo de leitura,o que não significa que eu não saiba do valor da autora e da obra em si. Mas tudo bem, talvez em seu afã de me criticar por não pensarmos da mesma forma você nem tenha lido a resenha, o que muito me espanta vindo de um fã das riquíssimas metáforas de Lygia. Agora, sobre passar vergonha, perceba uma coisa: não fui eu que me escondi sob o véu do anonimato, dei minha opinião sincera mostrando a cara. Quem sabe, se da próxima vez você mostrar a sua também, eu leve sua opinião em consideração e repense sobre a leitura. Beijos de luz, porque você está precisando! kkkkkk

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