30.1.15

Resenha: Eu Sou Malala


Eu Sou Malala - Malala Yousafzai
342 páginas


"O homem usava um gorro de lã tradicional e tinha um lenço sobre o nariz e a boca, como se estivesse gripado. Parecia um estudante universitário. Então avançou para a porta traseira do ônibus e se debruçou em nossa direção. 'Quem é Malala', perguntou [...]. Minhas amigas mais tarde me contaram que a mão do rapaz tremia ao atirar. Quando chegamos ao hospital, meu cabelo longo e o colo de Moniba estavam cobertos de sangue. Quem é Malala? Malala sou eu e esta é minha história."


Quando comecei a ler sua autobiografia, não imaginei que Malala me conquistaria da forma tão avassaladora que fez. Obviamente eu já havia visto entrevistas, reportagens e vídeos da paquistanesa, e já a admirava. Porém era de uma forma diferente da que a admiro hoje, que é muito menos superficial. Hoje eu realmente conheço sua história, sua paixão pelos livros e sua coragem diante de um grupo tão cruel, portanto não há como não ter virado sua fã. Também não há como ler esse livro e não querer ser um pouco Malala também...
Só pra situar quem não está muito por dentro da história, Malala é uma garota nascida no Paquistão que desde criança foi incentivada, principalmente por seu pai, a estudar. Ela cresceu amando os livros, e foi por eles que quase morreu. Seus discursos em defesa dos direitos das mulheres à educação acabou por incomodar o Talibã, grupo religioso extremista que atua no Paquistão e no Afeganistão, e foi aí que, ao voltar da escola num dia aparentemente normal, ela levou um tiro no rosto. Um tiro com a finalidade de silenciar para sempre a garota que não tinha medo de lutar por aquilo que acreditava.

Malala começa narrando os fatos do fatídico dia em que o Talibã quase roubou sua vida. A partir daí, a obra se divide em 5 partes: Antes do Talibã; O Vale da Morte; Três Meninas, Três Balas; Entre a Vida e a Morte e Uma Segunda Vida.

A primeira parte narra os fatos desde antes de seu nascimento até sua infância. Aqui Malala aproveita para nos dar uma aula sobre o vale do Swat, onde ela nasceu, e sobre as condições em que sua população vivia. Isso muito antes da chegada dos talibãs. Ela conta que seu pai, Ziauddin, sempre tratou as mulheres de forma diferente da que é considerada correta por lá. Por exemplo, ele sempre pedia conselhos à sua esposa, mãe de Malala, o que era inadimissível para outros homens. Ziauddin também era defesor do direito à educação para todos, homens e mulheres, e foi pensando nisso que ele fundou sua escola junto a um amigo. Essa escola passou por várias dificuldadaes, mas o pai de Malala jamais desistiu de seu objetivo, mesmo quando todas as circunstância eram desfavoráveis. E era dessa escola que Malala voltava quando sofreu o atentado.
Nessa parte muitas coisas me chamaram a atenção. Em primeiro lugar foram as explicações muito esclarecedoras que Malala dá sobre sua terra. Confesso que acho a situação do Oriente Médio, no geral, muito complicada, e me esforço para compreender um pouco do que acontece por lá. Dentre todas as minhas tentativas de entendimento, talvez Malala tenha sido a que melhor conseguiu clarear um pouco as coisas pra mim. Ela fala sem rodeios e demonstra muito conhecimento sobre a história de seu povo. Ela sabe datas, fala de cada fase do Paquistão, dos governantes, tudo muito bem explicado e sem parecer que está dando aula. É mais uma conversa enriquecedora, na verdade.

Aí vem a segunda parte, quando o grupo talibã chega ao vale, deixando sempre um rastro de sangue por onde passa. Talvez essa seja a parte mais revoltante do livro, mais até que a do próprio atentado. O Talibã destroi tudo, desde vidas até o patrimônio histórico. Nessa época, aconteciam sérias ameaças às escolas de meninas e várias cederam ao medo e fecharam suas portas. Porém, Ziauddin resistiu e continuou com seu estabelecimento em meio ao caos. também foi nesse momento que Malala tornou-se mais ativa na luta pelo direito à educação das mulheres. Os talibãs a acusavam de não falar em prol da educação, mas sim contra eles. Contudo, a verdade era que a jovem discursava a favor da educação, e não contra o Talibã.
De acordo com que ia lendo as atrocidades cometidas pelo grupo extremista, mais me apegava à Malala e mais admirava sua coragem. Ela conta sobre as praças em que o grupo jogava os cadáveres de quem os desagradava como forma de mostrar às pessoas o que acontecia com quem se colocava contra o extremismo. Também fala diversas vezes sobre seu medo de ter ácido jogado no rosto, como fizeram com outras garotas. Enfim, coisas que nós ouvimos falar que ocorrem, mas que é difícil acreditar que é verdade.

Nas últimas partes passamos ao relato dos dias antes e depois do atentado. Ver o caminho feito por Malala, sabendo o que aconteceria com ela foi perturbador. O responsável pelo atentado deu 3 tiros, os quais acertaram outras garotas além do alvo principal. Quanta frieza, quanta ignorância... Será que é isso mesmo que Deus quer de nós?
A garota narra todo o seu processo de recuperação, tanto no seu país quanto na Inglaterra. Engana-se quem pensa que foi uma fase fácil. Ela ficou com graves sequelas, passou por várias cirurgias, teve um pedaço do crânio arrancado e lutou muito para conseguir sorrir novamente. Sua família também teve dificuldades pra sair do Paquistão, o que fez com que Malala passasse por um grande período contando apenas com a ajuda de médicos e funcionários do hospital.
Ela conta sobre a insistência da mídia, ávida por notícias; conta sobre a reação de seu governo e conta o que sabe sobre o destino de alguns dos talibãs, incluindo do atirador que quase ceifou sua vida.

Durante todo o seu relato, Malala é extremamente sincera, e não se coloca como heroína em nenhum momento. Ela fala sobre seu egoísmo e sobre a inveja que sentia quando alguém era melhor que ela na escola com a mesma naturalidadae com que contava sua luta. Ali, naquelas páginas, há uma pessoa real, com nenhum dom extraordinário além da coragem, nos mostrando como é lindo lutarmos por aquilo que acreditamos. Não importa que seja só uma gota no oceano, o que importa é ter uma ideologia. E isso a paquistanesa tem.
Definitivamente, e com o perdão do clichê, o mundo precisa de mais Malalas!
 

8 comentários:

  1. Oiee ^^
    Quero muuito ler esse livro. Demorei um pouco para descobrir quem era a Malala, mas fiquei de queixo caído com a coragem e determinação dela, saber que o mundo tem pessoas assim me deixa um pouco mais feliz.
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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    1. Tb me deixa feliz, Dryh! Nos faz pensar que ainda há esperança... :)

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  2. Eu criei uma admiração muito grande por Malala, desde quando comecei a acompanhar sua história. Não é ridículo, que ainda hoje, meninas da idade dela tenham que LUTAR por direitos que já deveriam existir? O machismo está mais presente do que muitos imaginam, e não é só no terror que vemos com o que eles fazem com mulheres em países como Talibã, mas em qualquer lugar. Porque, primeiramente, a mulher não deveria exigir respeito algum, ela já deveria ter, e segundo que ela não deveria já ter respeito por ser mulher, e sim por ser humana. Acho que para qualquer pessoa que tenha um mínimo de raciocínio lógico, é feminista. Direito à educação é alguma coisa que se deve à todos, e Malala é um grande exemplo para todos nós. Ainda não li o livro, mas estou muito ansiosa para comprar e lê-lo, e como você disse, "o mundo precisa de mais Malalas". Beijos

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    1. Adorei seu comentário, Natalia! Resumiu todo o meu sentimento ao ler a biografia de Malala... Leia o livro, tenho certeza de que vc vai amar!

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  3. Olá Michelly,
    Quero muito ler este livro!!! Parabéns pela resenha, aguçou mais ainda minha vontade.

    Beijos

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    1. Ele é ótimo, Andreia! Acho que é a sua cara!

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  4. Quero muuuito ler esse livro! ♥ Malala é um dos motivos de eu ainda ter fé nas pessoas, e um exemplo de como espero criar meus filhos, quando os tiver. Acho lindos os discursos que ela faz e comemorei quando ela recebeu o Nobel da Paz. :)

    Beijos :D
    lui-lilymon.blogspot.com.br

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    1. Tb comemorei e acho que ela representa uma esperança pra humanidade mesmo! Por isso que disse que precisamos de mais Malalas!

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