7.3.15

Resenha: As Mentiras de Locke Lamora


As Mentiras de Locke Lamora - Scott Lynch
464 páginas


"Não sei muito bem como explicar. Algumas das minhas crianças gostam de roubar. Algumas são indiferentes ao roubo e outras apenas o toleram porque sabem que não têm mais nada para fazer. Mas ninguém, digo e repito, ninguém demonstrou tamanha avidez pelo ato de roubar quanto esse menino. Se ele estivesse com o pescoço cortado e um Galeno estivesse tentando costurá-lo, Lamora roubaria a agulha e o fio e morreria rindo."


Locke Lamora é um garoto que desde os cinco anos demonstrou uma enorme aptidão para praticar os mais variados e ambiciosos tipos de golpes. Incialmente sob os cuidados do Aliciador, logo foi vendido ao Padre Correntes, um vigarista que se fazia passar por um sacerdote cego da Casa de Perelandro. A partir daí ele passa a ser treinado para fazer parte do grupo liderado por Correntes, chamado Nobres Vigaristas, especialistas na arte de roubar.
O livro é divido em dois períodos: o passado, onde conhecemos o começo da trajetória de Locke; e o presente, quando o autor mostra Locke já adulto e prestes a aplicar o maior golpe de sua vida.
A história se passa em Camorr, uma cidade inspirada na Veneza pós Idade Média, repleta de gangues especializadas em todo tipo de crime, sendo todas elas controladas por Capa Barsavi.
Acontece que, nesse ínterim, um certo Rei Cinza começa a aterrorizar a vida dos bandidos da cidade, principalmente a de Locke, ao lhe obrigar a ser parte de um plano que colocará sua vida e a de seus amigos em risco. Agora cabe a Locke tirar um de seus planos infalíveis da cartola e salvar a si, a seus amigos e, quem sabe, até a seus inimigos...

Os personagens criados por Lynch foram muito bem trabalhados. 
Locke, também conhecido como Espinho de Camorr, é o vigarista mais carismático dos últimos tempos. Graças a simpatia de seu personagem principal, o autor nos faz ficar do lado do bandido e nós acabamos torcendo para que seus golpes dêem certo. 
Outro membro dos Nobres Vigaristas, Jean Tannem, ganha destaque pela fidelidade que demonstra pelos seus comparsas. Ele é o mais forte, o que ganha todas as brigas, mas também é o que aparenta maior fragilidade devido ao passado traumático onde perdeu seus pais de forma brutal. Gostei e torci muito por ele. 
Calo, Galdo e Pulga fecham o grupo atualmente liderado por Locke, anteriormente liderado por Correntes. Cada um deles tem suas próprias características e desempenham funções importantes para a trama. 
Mas Lynch foi além dos Nobres Vigaristas e criou outros personagens tão importantes quanto. Capa Barsavi é cruel e enigmático, enquanto sua filha Nazca, apesar de dura nos negócios, se mostra uma boa amiga em sua relação com Locke. O Rei Cinza conserva aquela arrogância irritante de quem sabe que nada pode atingí-lo, e eu adorei odiá-lo. Esse personagem, inclusive, poderia até ser considerado o grande vilão da história, porém fica difícil dizer isso quando se trata de uma narrativa onde o próprio herói é um pouco vilão.

Outro aspecto que faz com que Lynch mereça ser aplaudido diz respeito à forma com que ele nos ambienta na história. Não há descrições detalhadas durante a narrativa, mas nós vamos conhecendo Camorr aos poucos através de passagens do texto que falam sobre aspectos e costumes da cidade. Essa forma me conquistou pela sutileza.

Contudo, eu preciso ser sincera com vocês, e assim como o livro mostrou qualidades, também mostrou alguns defeitos que me incomodaram bastante e me fizeram estabelecer uma relação de amor e ódio com a história. 
Um exemplo do que me incomodou foi a forma utilizada pelo autor para transitar entre passado e presente. Eu já havio visto esse tipo de narrativa nos livros de Patrick Rothfuss e adorei, porém, no caso de As Mentiras de Locke Lamora esse esquema deixou o desenvolvimento um pouco confuso. Enquanto a maioria das partes do presente eram emocionantes, onde coisas importantes realmente aconteciam, o passado se mostrou monótono na maior parte. 
O que eu senti foi mais ou menos isso: quando a história começava a se desenvolver, vinha um Interlúdio mostrando o passado e quebrava o ritmo da narrativa. Gente, vocês não imaginam o tanto que isso amarrou minha leitura e me desanimou...

Mais uma vez, fui prejudicada pelas altas expectativas que nutri graças ao fato de esse ser um livro recomendado por George R. R. Martim e Patrick Rothfuss, dois de meus autores preferidos. Daí, como a história não era tão empolgante quanto eu imaginava, em parte porque não me identifiquei totalmente com a escrita de Lynch, demorei mais do que o normal para terminar a leitura. Mas isso é culpa exclusivamente minha, já que tenho o péssimo hábito de nutrir expectativas mesmo sabendo que é a pior coisa que um leitor pode fazer.

No final das contas não consigo definir muito bem meus sentimentos sobre a história do Espinho de Camorr. É óbvio que mesmo com minha falta de identificação, Scott Lynch é um autor brilhante. A história é criativa e interessante, sendo que em algumas partes eu não queria largar o livro. Porém, tive vontade de pular outras partes, de tão monótonas que se mostraram, e por isso acabei classificando o livro apenas como bom. 
Vamos ver se o próximo volume, Mares de Sangue, me conquista ou me faz desistir de vez da série que conta as peripécias do Espinho de Camorr.

4 comentários:

  1. Oi Michelly!

    Sempre quebramos a cara quando vamos com expectativa demais para um livro, né? Acontece comigo sempre (kkkk). Não tenho muita vontade de ler Locke Lamora, até porque todos dão 3 estrelas pra ele, então... Não leria não. Beijo!

    http://euvivolendo.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Verdade, Gabriel! Eu tento não nutrir expectativas, mas qd vc vê dois de seus autores preferidos indicando o livro, fica meio difícil não se empolgar!

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  2. Para mim um Livro sensacional!
    Fiquei intrigado de ver como o Scott cria as mentiras e truques do Lamora!
    Lógico que notamos alguns pontos baixos no livro... mas eu fiquei vidrado nesse livro.
    Li os Mares de Sangue e não recomendo... acho que é um livro para se ler se quer relembrar Locke daqui alguns anos... mas não leia logo de cara depois das Mentiras de Locke, porque ao meu ver tem muita repetição do primeiro livro... veneno, chantagem, golpe por tras do golpe... achei que faltou ciratividade... porem aprender coisas sobre Navios foi muito bom ao ler Mares de Sangue!
    Estou partindo para ler a Companhia Negra esse mês!!!
    Se gosta de teorias dá uma passadinha no blog do meu irmão

    www.drunkwookie.com.br

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    1. Oi Diego! Gostei de saber sua opinião sobre o livro, principalmente sobre Mares de Sangue. Acho que mesmo tendo muitas coincidências com esse primeiro volume,acho que vou acabar dando uma chance! :)

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