13.3.15

Resenha: Estilhaça-me

Estilhaça-me - Tahereh Mafi
304 páginas


"Não consigo me lembrar do calor de qualquer tipo de abraço. Meus braços doem em virtude do inescapável gelo do isolamento. Minha própria mãe não poderia me segurar nos braços. Meu pai não poderia aquecer minhas mãos congeladas. Vivo em um mundo de nada."


Estilhaça-me começa com a protagonista Juliette reclusa num manicômio, há exatos 264 dias sem tocar ninguém. Seu toque fatal foi responsável por uma grande tragédia que não só a devastou como também a fez aceitar seu destino passivamente. De qualquer forma, não há muito o que aproveitar do mundo lá fora, visto que o caos parece ter se instalado no planeta. A responsabilidade por driblar as dificuldades dessa nova era ficou a cargo do Restabelecimento, uma instituição que visa subjugar os mais fracos em favor dos mais fortes.
Contudo, depois de tanto tempo sozinha, eis que Juliette ganha um novo companheiro de cela. Arredia, ela tenta manter o mínimo de contato possível com o belo rapaz, mas parece que não é isso o que ele quer. Depois de várias tentativas de aproximação fracassadas, chega um dia em que Juliette é libertada por Warner, que a leva para viver com ele. Mas, claro, Warner não daria casa, comida e roupa lavada à garota se não tivesse interesse nenhum nela.
E é aí que começa o novo tormento de Juliette: depois de meses encarcerada, agora sua liberdade depende de sua concordância em torturar pessoas para o Restabelecimento. Enojada pela situação, a protagonista não aceita essa proposta e fará de tudo para não se transformar em uma arma, mesmo sendo o lado mais fraco da história. Warner, por sua vez, desenvolve uma certa obsessão pela moça e não irá aceitar um não como resposta.
No meio de tudo isso está Adam, um rapaz que viveu um passado com Juliette muito além do que apenas ter ficado preso com ela. Pois é, ele era o cara que ficou em sua cela, o que não aconteceu por coincidência. Juntos, eles tentarão resistir às pressões do Restabelecimento e descobrirão que a fixação de Warner ultrapassa qualquer limite, colocando em risco a vida de quem quer que atravesse seu caminho.

Esse livro foi escrito por Tahereh Mafi e é o primeiro volume de uma trilogia. Logo no início a autora mostra seu estilo de narrativa, que é bem diferente de tudo que já li, por sinal. Um dos recursos mais utilizados foi o de taxar frases ou palavras durante as falas e os pensamentos de Juliette, como se ela não quisesse admitir seus sentimentos nem para si mesma. Outra particularidade do texto é a repetição de palavras com o intuito de intensificar as sensações da protagonista. Intensificar as sensações, aliás, é algo que a autora fez bastante, haja vista o estilo poético de sua escrita e o abuso das metáforas.
Tudo isso é muito bom e dá certa personalidade ao livro, porém, ao meu ver, Tahereh exagerou um pouco na utilização de tais recursos. A impressão que dá ao ler Estilhaça-me é que a história tornou-se deprimente sem querer. Se as repetições e até mesmo as metáforas tivessem sido mais dosadas, o texto seria menos angustiante e conseguiríamos levar Juliette mais a sério. Como é usado toda hora, às vezes parece que a protagonista tem uma tendência ao drama, o que acredito que não era a intenção.

Resumindo, emoção demais em uma distopia não combina. E aí vem outro ponto que merece atenção. A obra é de distopia, certo? Mas assim como aconteceu com A Seleção, Estilhaça-me tende muito mais para o romance do que para a distopia. E também tem traços de ficção científica, o que me deixou meio confusa sobre a intenção da autora. Entendam, o livro é bom e a história tem futuro, porém achei Tahereh um tanto amadora. É como se ela tivesse potencial, mas precisasse ser lapidada. Sabe aquele lance de dar o passo maior que a perna? Então, foi basicamente isso que aconteceu...
Por outro lado, quando ela conseguiu focar mais na parte distópica, o livro teve uma melhora relevante. Mais pro final, a partir de uma certa perseguição, a leitura fluiu e me empolgou, conseguindo, inclusive, atiçar minha curiosidade. Isso me fez ter vontade, pela primeira vez durante toda a narrativa, de ler a continuação. Já vi muitos criticando a parte "X-Men" da história, mas foi justamente essa parte que não me deixou desistir da trilogia.

Com relação aos personagens, me surpreendi por não antipatizar com Juliette. Ela é mimizenta? Ela é mimizenta. Mas é um mimimi justificável porque, pensa comigo, a garota foi renegada até por seus pais, viveu meses presa num manicômio e misteriosamente não pode encostar em ninguém com risco da pessoa morrer. Bella Swan tinha muito menos motivos e era bem mais chata que a Juliette... Enfim, apesar de todo aquele drama, entendo a confusão de emoções que deve ser a cabeça da garota, e acho ela até bem decidida em alguns aspectos. Resultado: Juliette é a primeira mimizenta que me conquistou.
Adam é o típico bom moço tão apaixonado pela mocinha que está disposto a morrer por ela. Gostei, até agora prefiro que ela fique com ele, mas não vi nada de muito extraordinário na construção do personagem.
Já Warner é um vilão bem babaca, do jeito que eu gosto. Parece que ele não tem noção do tamanho das maldades que pratica. Gente, a cena do bebê no quarto é coisa de vilão com V maiúsculo. E pelo que tudo indica a Juliette vai quebrar o coração de pedra dele, o que eu acho previsível, mas vamos aguardar antes de reclamar, né?! Só espero que a autora não estrague tudo romantizando demais seu vilão.

No mais, o livro vale pela diversão e, para aqueles que gostam, pelo romance. Os capítulos curtos ajudam a acelerar o ritmo da leitura e a diagramação é boa, com letras de tamanho confortável. Tenho muita esperança de que o segundo volume seja mais focado na distopia que esse, e se isso acontecer, a trilogia tem tudo pra ganhar um espaço maior em meu coração. Mais X-Men e menos Nicholas Sparks, por favor!

2 comentários:

  1. Olá Michelly , tudo bem? Me chamo Vitor e tenho um recém-criado blog literário. Respondi à uma tag e te indiquei para ela, adoraria se pudesse responder. Um abraço. Ótimo blog!

    Aqui o link:
    http://penasdocorujal.blogspot.com.br/2015/03/tag-liebster-award-tag.html

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    1. Oba! Adoro tags, Vitor! Já tô indo lá conhecer seu blog e logo logo prometo que respondo a tag! ;)

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