11.9.15

Resenha: A Invenção das Asas


A Invenção das Asas - Sue Monk Kidd
328 páginas


"Eu não sabia explicar à época como uma árvore mora dentro de sua semente ou como eu de repente soube que do mesmo modo enigmático algo vivia dentro de mim - a mulher que eu me tornaria -, mas eu parecia saber subitamente quem ela era."

 
Sarah Grimké foi uma importante abolicionista americana que viveu entre os anos de 1792 a 1873. Em sua trajetória verifica-se a luta, não apenas contra a escravidão, mas também a favor das mulheres. A obra de Sue Monk Kidd, A Invenção das Asas, tem sua narrativa baseada na história dessa mulher, utilizando fatos reais e os entrelaçando com uma linda história de ficção, onde a escrava Hetty Encrenca compartilha com ela o protagonismo do livro.

Sarah vivia em Charleston com a família e seus escravos. Seu pai era juiz, carreira a qual a garota tinha vocação, mas somente seus irmãos puderam seguir. As meninas da família eram desestimuladas a estudar, mas Sarah nutria um amor quase proibido pelos livros. Não raro ela invadia a biblioteca de seu pai para se entregar ao prazer da leitura, o que sempre desagradou, e muito, sua mãe rigorosa.
Ao fazer 11 anos, Sarah foi presentada com sua primeira escrava: Hetty. Extremamente incomodada com aquela situação, Sarah tenta de tudo para devolver o presente, visto que, desde muito cedo, ela já nutria os ideais abolicionistas que a fariam famosa, porém, como era apenas uma criança, acabou tendo que aceitar a vontade de sua mãe, ficando com Hetty.
 
Hetty era chamada de Encrenca por sua mãe, uma escrava costureira que atendia pelo nome de Charlote. Com apenas 10 anos e nenhuma experiência como dama de companhia, a pequena escrava teve que se habituar à nova condição, o que incluia ficar mais tempo longe de sua mãe, por quem tinha um apego muito grande. Apesar de ter nascido escrava, Encrenca sempre foi estimulada por Charlote a ter o pensamento livre, comportamento este que foi alimentado pela forma complacente com que Sarah a tratava.
E é assim que a autora nos apresenta suas protagonistas, as quais acompanhamos por mais de 30 anos tendo suas vidas entrelaçadas de uma forma bela, dolorosa e inspiradas no sonho da liberdade.

Segundo relatos, Sarah realmente ganhou uma escrava chamada Hetty quando criança, porém essa pobre criatura morreu ainda muito jovem. Acontece que isso foi o suficiente para que Sue Monk Kidd inventasse logo uma personalidade para ela e a colocasse para nos contar essa história ao lado da famosa abolicionista. E ela fez isso de forma magistral, diferenciando as vozes da narrativa de cada uma delas, sendo que nem era preciso ler o nome do capítulo para saber de qual personagem era a vez. Enquanto Sarah era rebuscada em suas palavras, Encrenca contava tudo da forma mais simples possível.
Outros personagens de destaque na trama foram a mãe de Sarah, uma mulher extremamente arrogante e corrompida pelo meio, capaz de achar super natural tratar pessoas de um forma que nem animais deveriam ser tratados. Por outro lado a mãe de Hetty demonstrava outro tipo de arrogância, um tipo inspirado pelo desejo de não pertencer a ninguém. Obviamente ela tinha razão em não aceitar sua esravidão, porém acho que Charlote passava da conta, sendo que a julgo até como uma pessoa má. Fato é que as duas mães da história me deram nos nervos, o que somou pontos para a autora, já que conseguiu criar tipos tão reais.
Também vale citar Dinamarca Valey, o personagem mais importante depois das protagonistas. Ele era um escravo que ganhou na loteria e comprou sua liberdade. A partir daí dedicou sua vida a influenciar outras pessoas a lutar pelo fim da escravidão, mesmo que isso significasse matar todos os brancos de Charleston. Dinamarca me irritou no começo, mas aos poucos fui me afeiçoando à ele e percebi que um homem tão marcado pela crueldade dos brancos não poderia nutrir outro sentimento por eles, senão ódio.

A narrativa de Sue é delicada e cruel ao mesmo tempo. As atrocidades cometidas como os escravos nos enojam... Experimente conhecer os horrores da Casa de Trabalho, usada para punir escravos “desobedientes”, que você vai entender o que estou dizendo.
E nojo não foi a única reação que a autora conseguiu tirar de mim. Aliás, é difícil dizer qual reação ela não provocou. Senti raiva de pessoas e situações, medo por certos personagens que confrontavam o sistema, compaixão pela condição de certas pessoas, tanto brancos quanto escravos, e amor, muito amor, por Sarah. Ela realmente foi uma mulher incrível e mereceu esse livro, escrito com tanto cuidado, em sua homenagem.
Minha única reclamação com relação à obra foi a queda do ritmo no final do livro. Apesar de não ter grandes reviravoltas, o texto nos prende e nos empolga, porém quando estava chegando no final senti meu interesse diminuir um pouco. Apesar disso ter me incomodado, fiquei feliz ao terminar a leitura, afinal, não é todo dia que nos deparamos com um livro que, além de nos distrair, contribui para que sejamos pessoas melhores. A Invenção das Asas fez isso por mim, e se você for esperto, vai deixar que também faça por você.
 

4 comentários:

  1. Sempre que tenho tempo e vejo as novidades dos blogs que sigo, imediatamente paro tudo que estou fazendo para ler suas resenhas quando vejo na lista. Que resenha maravilhosa!! E que história!!
    Eu já desejei esse livro, já exclui da minha lista de desejos, e agora desejo de novo rsrs.
    Beeijos
    http://myqueenside.blogspot.com.br/
    http://www.pequenosvicios.com.br/

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    1. Deixe ele na sua lista porque é ótimo, Bia! E acima de tudo te ajuda a se aperfeiçoar como ser humano!

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  2. Imagino que essa livro deve ser um pouco intenso e forte, não é? Bem, apesar de ser um pouco traumatizante, a história também deve ser bem interessante. Apensar de não ter me convencido muito, já que meu gênero preferido é outro, tenho certeza que a história é muito boa!
    vorazesleitoras.blogspot.com

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    1. Eu adoro um drama, então essa história foi perfeita pra mim! :) Mas acredito que ela vai agradar até a quem não gosta tanto assim desse gênero...

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