Eu Sou Malala


Autora: Malala Yousafzai com Christina Lamb
Editora: Companhia das Letras
Nota: 5/5

Quando comecei a ler sua autobiografia, não imaginei que Malala me conquistaria de forma tão avassaladora. Eu já havia visto entrevistas, reportagens e vídeos da paquistanesa, e já a admirava, porém de uma forma diferente da que a admiro hoje, que é muito menos superficial. Agora eu realmente conheço sua história, sua paixão pelos livros e sua coragem diante de um grupo tão cruel, portanto não há como não ter virado sua fã. Também não há como ler esse livro e não querer ser um pouco Malala também.

 Só pra situar quem não está muito por dentro da história, Malala é uma garota nascida no Paquistão que desde criança foi incentivada, principalmente por seu pai, a estudar. Ela cresceu amando os livros, e foi por eles que quase morreu. Seus discursos em defesa dos direitos das mulheres à educação acabaram por incomodar o Talibã, grupo islâmico fundamentalista que atua no Paquistão e no Afeganistão, e foi aí que, ao voltar da escola num dia aparentemente normal, ela levou um tiro no rosto. Um tiro com a finalidade de silenciar para sempre a garota que não tinha medo de lutar por aquilo que acreditava.

Malala começa narrando os fatos do fatídico dia em que o Talibã quase roubou sua vida. A partir daí, a obra se divide em 5 partes: Antes do Talibã; O Vale da Morte; Três Meninas, Três Balas; Entre a Vida e a Morte e Uma Segunda Vida.

A primeira parte narra os fatos desde antes de seu nascimento até sua infância. Aqui Malala nos apresenta o vale do Swat, onde ela nasceu, e fala um pouco sobre as condições em que sua população vivia antes da chegada dos talibãs.

A garota conta que seu pai, Ziauddin, sempre tratou as mulheres de forma diferente da que é considerada correta por lá. Por exemplo, ele sempre pedia conselhos à sua esposa, mãe de Malala, o que era inadmissível para outros homens. Ziauddin também era defensor do direito à educação para todos, homens e mulheres, e foi pensando nisso que ele fundou sua escola, junto de um amigo. E era dessa escola que Malala voltava quando sofreu o atentado.

Nessa parte da narrativa muitas coisas me chamaram a atenção. A primeira delas, vale destacar, diz respeito às explicações de Malala sobre sua terra. Confesso que acho a situação do Oriente Médio, no geral, muito complicada, e me esforço para compreender um pouco do que acontece por lá. Dentre todas as minhas tentativas de entendimento, talvez Malala tenha sido a que melhor conseguiu clarear um pouco as coisas pra mim. Ela fala sem rodeios e demonstra muito conhecimento sobre a história de seu povo. Ela sabe datas, fala de cada fase do Paquistão, dos governantes, tudo muito bem explicado e sem ser pedante. Sua narrativa soa mais como uma conversa enriquecedora, na verdade.

Em seguida, acompanhamos a chegada do grupo talibã ao vale, deixando sempre um rastro de sangue por onde passava. Talvez essa seja a parte mais revoltante do livro, mais até que a do próprio atentado. O Talibã destrói tudo, desde vidas até o patrimônio histórico.

Nessa época aconteciam sérias ameaças às escolas de meninas e várias cederam ao medo, fechando suas portas. Porém, Ziauddin resistiu e continuou com seu estabelecimento em meio ao caos. Foi nesse momento que Malala tornou-se mais ativa na luta pelo direito à educação das mulheres. Os talibãs, por sua vez, acusavam a garota de não falar em prol da educação, mas sim contra a ideologia cruel que eles impunham.

De acordo com que ia lendo as atrocidades cometidas pelo grupo islâmico, mais me apegava à Malala e mais admirava sua coragem. Ela conta que haviam praças onde o grupo jogava os cadáveres de quem os desagradava como forma de mostrar o que acontecia com quem se colocava contra sua ideologia. Malala também fala, de forma recorrente, sobre seu medo de ter ácido jogado no rosto, como fizeram com outras garotas. Enfim, coisas que todos nós já ouvimos falar que acontecem, mas que é difícil acreditar que seja verdade.

Nas últimas partes passamos ao relato dos dias antes e depois do atentado. Ver o caminho percorrido pela jovem sabendo o que aconteceria com ela foi perturbador. O responsável pelo atentado deu 3 tiros, os quais acertaram outras garotas além do alvo principal. Quanta frieza, quanta ignorância pensar que é isso o que Deus espera de nós.

Malala narra todo o seu processo de recuperação, tanto no período que permaneceu no Paquistão quanto depois que foi para a Inglaterra. Ela ficou com graves sequelas, passou por várias cirurgias, teve um pedaço do crânio arrancado e lutou muito para conseguir sorrir novamente. Sua família também teve dificuldades pra sair do Paquistão, o que fez com que Malala passasse por um grande período contando apenas com a ajuda de médicos e funcionários do hospital.

Ela também conta sobre a insistência da mídia, ávida por notícias; conta sobre a reação de seu governo e conta o que sabe sobre o destino de alguns dos talibãs, incluindo do terrorista que quase ceifou sua vida.

Durante todo o seu relato, Malala é extremamente sincera e não se coloca como heroína em nenhum momento. Ela fala sobre seu egoísmo e sobre a inveja que sentia quando alguém era melhor que ela na escola com a mesma naturalidade com que narra sua luta. Ali, naquelas páginas, há uma pessoa real, com nenhum dom extraordinário além da coragem, nos mostrando que vale a pena lutar por aquilo que acreditamos.

A edição da Seguinte também traz fotos da trajetória da paquistanesa, inclusive depois do atentado. No geral é um livro simples, numa edição simples, mas que conta uma história que nos ensina e nos faz refletir sobre uma cultura tão distante da nossa.

Comentários

  1. Oie!
    Também amei esse livro e passei a admirar a Malala ainda mais. Todos deviam ler esse livro.
    Fico feliz de ver que gostou e recomenda. Esse livro é realmente incrível!

    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

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    1. Oi Leticia!
      Também acho que todo mundo deveria ler esse livro. Além de uma história de vida incrível, a despeito da pouca idade, Malala nos ensina muito sobre história e cultura de seu país. O leitor só tem a ganhar!
      Beijos!

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